Tomo Primeiro
"dar aos olhos abertos o nada das palavras" (Gastão Cruz).
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
FELIZ ANIVERSÁRIO
Uma caixa deixada à porta, um evento inesperado no dia que morria. O papel pardo, como a vista da cidade sob a espessura da tarde, deitava-se disforme sobre o chão, o durex apressado pressionava-lhe as bordas, aquele corpo fora largado, ali, desconfortável e melancólico. Verificou que nenhum conhecido se distanciava, nenhum som familiar além dos ruídos de carros e sirenes a que acostumara chamar silêncio. A caixa, como quem nasce, repousava inquieta junto a seus pés. Apanhou-a com cuidado, teve receio de ferir seu conteúdo com movimentos desavisados. O objeto voara em suas mãos, quase sem peso. Pousou-o no ângulo do braço, o papel deslizou, ajustando-se ao peito. Viu-se parado na soleira, enxergando imagens fictícias na transparência da caixa. Pôs-se a sonhar valores altos, gemas azuladas, objetos inexistentes. Por fim, conduziu-a entre os braços ao interior da sala. Era tarde quando reuniu coragem para descolar uma das bordas. Lentamente, aproximou a caixa violada da luminária para examinar seu interior. Por todo lado, o céu rondava com seus sons ocultos.
sábado, 13 de março de 2010
POUR ONETTI
Recordava-se dele no corredor do hotel, em Santa Maria. A tez muito pálida de onde brotavam fios espessos da cor do tomate, o corpo magro de vocação curva, o cenho interrogativo espessando-se por cima do aro de metal dos óculos, e o enorme dispêndio de energia para equilibrar a pilha de livros de matemática e alemão nos finíssimos braços. Cantarolava algo que vagamente assemelhava-se a Erbame Dich e veio-lhe a lembrança de tê-lo escutado discorrer, havia alguns anos, em um programa da televisão espanhola, a respeito de seus achados sobre supostos estudos em aritmética empreendidos por lingüistas do Sacro Império Romano-Germânico, cujo resultado havia sido a criação da língua germânica, de onde havia saído o alemão moderno. O hibridismo perfeito de cálculo e fonética, afirmara o especialista, seria a explicação para o prodígio morfológico, em que se basearia o atrativo perpétuo pela literatura de Goethe e pelas árias religiosas de Johann Sebastian Bach.
Naqueles dias, suas idéias pareceram-lhe surpreendentemente ousadas e, de fato, não tardaram a saírem publicadas na sessão de cartas de El Liberal graves críticas de experts em língua alemã, de todo o país, em repúdio a suas declarações à repórter espanhola. O tom colérico oriundo das cátedras inibiu de maneira implacável qualquer possibilidade de difusão da teoria no meio acadêmico e, vendo-se isolado de seus pares e privado da possibilidade de diálogo, abruptamente deixou de participar dos programas televisivos matutinos e seus artigos nunca mais estamparam o caderno de cultura do jornal. Foi tido por desaparecido da memória, inclusive dos poucos que o apoiavam naquele tempo.
Parecia provável, dado o seu sumiço, que houvesse abandonado as pesquisas e se refugiado em alguma cidade inalcançável do Brasil ou, pelo contrário, que trabalhasse com ainda maior afinco, em treva e humildade, talvez aguardando a chegada de um momento teórico, quando em seus estudos voltaria a desarrumar as estantes da capital e em que suas idéias atrairiam jovens estudantes e velhos catedráticos.
Mas foi vê-lo naquele hotel, pela manhã, transportando livros para o quarto ordinário; e novamente à tarde, abrigando-se do sol na parca sombra da amendoeira, na praça do centro de Santa Maria. Nesta ocasião, não carregava livros e o chapéu panamá sobre o colo revelava espichados os adivinhados cabelos ruivos. Ficou a observá-lo por alguns minutos, fragmentados entre a ida e a vinda do correio, cruzando o diâmetro da praça. Ali, ele permaneceu imóvel, apoiando a silhueta magra contra o corpo rijo da árvore. Depois disso, nunca mais soube dele. Por muitos anos, ao fim do dia, deitado na cama sozinho ou nos braços de algum amante, conseguia imaginá-lo em seu casebre no interior do Brasil, adormecido entre livros de álgebra e exemplares de Fausto, escutando ao fundo a vitrola repetir os acordes iniciais de Erbame Dich.
Naqueles dias, suas idéias pareceram-lhe surpreendentemente ousadas e, de fato, não tardaram a saírem publicadas na sessão de cartas de El Liberal graves críticas de experts em língua alemã, de todo o país, em repúdio a suas declarações à repórter espanhola. O tom colérico oriundo das cátedras inibiu de maneira implacável qualquer possibilidade de difusão da teoria no meio acadêmico e, vendo-se isolado de seus pares e privado da possibilidade de diálogo, abruptamente deixou de participar dos programas televisivos matutinos e seus artigos nunca mais estamparam o caderno de cultura do jornal. Foi tido por desaparecido da memória, inclusive dos poucos que o apoiavam naquele tempo.
Parecia provável, dado o seu sumiço, que houvesse abandonado as pesquisas e se refugiado em alguma cidade inalcançável do Brasil ou, pelo contrário, que trabalhasse com ainda maior afinco, em treva e humildade, talvez aguardando a chegada de um momento teórico, quando em seus estudos voltaria a desarrumar as estantes da capital e em que suas idéias atrairiam jovens estudantes e velhos catedráticos.
Mas foi vê-lo naquele hotel, pela manhã, transportando livros para o quarto ordinário; e novamente à tarde, abrigando-se do sol na parca sombra da amendoeira, na praça do centro de Santa Maria. Nesta ocasião, não carregava livros e o chapéu panamá sobre o colo revelava espichados os adivinhados cabelos ruivos. Ficou a observá-lo por alguns minutos, fragmentados entre a ida e a vinda do correio, cruzando o diâmetro da praça. Ali, ele permaneceu imóvel, apoiando a silhueta magra contra o corpo rijo da árvore. Depois disso, nunca mais soube dele. Por muitos anos, ao fim do dia, deitado na cama sozinho ou nos braços de algum amante, conseguia imaginá-lo em seu casebre no interior do Brasil, adormecido entre livros de álgebra e exemplares de Fausto, escutando ao fundo a vitrola repetir os acordes iniciais de Erbame Dich.
segunda-feira, 8 de março de 2010
FICÇÕES
MIRAMAR
Desta vez, os pés descalços, as mãos atadas, os olhos cerrados pela escuridão, restava-lhe pensar. Um homem alto, de cabelos encaracolados, barba crespa, a boca em dois gomos de sangue, o queixo projetando-se da silhueta desenhada na cortina, ardendo de meio-dia. Ele parado de lado, aquilo resistira aos acontecimentos. Ao redor daqueles instantes, o tempo crescera enovelado, tecera dias de cansaço e noites de insônia, estirara os caminhos de se ir e regressar sob céus escuros de metal. E era a mesma cena retomada, caso se deitasse em vão sobre o leito ou se a luminosidade glacial da lua detivesse-o a meio caminho do estábulo, quando súbito estivesse indefeso e o vento soprasse escuridão para dentro de seus olhos. Então de imediato, retornava a tarde de sol absoluto, em que aquele homem olhava através da janela, de cabelos encaracolados, barba crescida, a boca, duas pétalas vermelhas. De pé, virando-se de lado. Era aquilo cujo fulgor rastreara e conseguira um dia encontrar. Diante da imobilidade gélida do deus, mesmo em sonho, não continha as lágrimas. Mas a roca girara para os últimos fios de sua vida restante. Desta vez, puseram-no em um cubículo sem iluminação, ataram-lhe os punhos. E quando então os pés notaram-se descalços, as mãos imobilizadas, os olhos cegos, restava-lhe pensar.
Desta vez, os pés descalços, as mãos atadas, os olhos cerrados pela escuridão, restava-lhe pensar. Um homem alto, de cabelos encaracolados, barba crespa, a boca em dois gomos de sangue, o queixo projetando-se da silhueta desenhada na cortina, ardendo de meio-dia. Ele parado de lado, aquilo resistira aos acontecimentos. Ao redor daqueles instantes, o tempo crescera enovelado, tecera dias de cansaço e noites de insônia, estirara os caminhos de se ir e regressar sob céus escuros de metal. E era a mesma cena retomada, caso se deitasse em vão sobre o leito ou se a luminosidade glacial da lua detivesse-o a meio caminho do estábulo, quando súbito estivesse indefeso e o vento soprasse escuridão para dentro de seus olhos. Então de imediato, retornava a tarde de sol absoluto, em que aquele homem olhava através da janela, de cabelos encaracolados, barba crescida, a boca, duas pétalas vermelhas. De pé, virando-se de lado. Era aquilo cujo fulgor rastreara e conseguira um dia encontrar. Diante da imobilidade gélida do deus, mesmo em sonho, não continha as lágrimas. Mas a roca girara para os últimos fios de sua vida restante. Desta vez, puseram-no em um cubículo sem iluminação, ataram-lhe os punhos. E quando então os pés notaram-se descalços, as mãos imobilizadas, os olhos cegos, restava-lhe pensar.
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